quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Admirável Mundo Novo x 1984


    Bom doidinhos. Neste post quero falar de dois livro clássicos de ficção científica, leitura indispensável para qualquer amante de um bom livro. Iniciando por ordem cronológica, iniciarei falando de Admirável Mundo Novo (Brave New World), de Aldous Huxley, publicado em 1932, e depois falarei também do livro 1984 (Nineteen Eight Four), de George Orwell, publicado em 1948. Os dois livros falam de um futuro distópico, que tratam sobre domínio, liberdade, manipulação, e traçam paralelos muito interessantes com a realidade.
     No futuro hipotético de Admirável Mundo Novo, as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em respeito e harmonia com as leis e regras sociais, em uma sociedade organizadas por castas. A história se passa em 751 d. F. (depois de Ford) e inicia contando a visita de um grupo de alunos ao Centro de Incubação e Condicionamento de Londres. Nela o diretor apresenta o processo de fecundação, onde cada novo ser é dividido em classes sociais, sendo os Alfas a casta mais alta, detentores do conhecimento, os Betas, detentores de habilidades específicas para realização das tarefas. E as castas inferiores são Gama, Delta e Ipsilons, que são mão de obra. Estes homens da casta inferiores eram gerados por um processo chamado Bokanovsky (noventa e seis gêmeos retirado de um óvulo só) e tratados pré-natalmente com álcool e outros químicos para controlar o desenvolvimento. Durante o crescimento do bebê, eram submetidos a processos hipnopédicos e condicionamento intelectual, anos ouvindo textos e máximas didáticas repetidas vezes no berços e outras técnicas. Isso garantia que todos respeitassem as leis impostas e vivessem em harmonia. Nessa sociedade, não existe sexo para procriação, somente para prazer, e também não existe o conceito de família. Os homens não tem esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas. Qualquer dúvida e incerteza é controlada por uma droga, a "soma", livre, distribuída pelo governo e sem efeitos colaterais. Nessa sociedade as pessoas são felizes, sentem-se bem, vivem em harmonia. O segredo da felicidade é amar oque se é obrigado a fazer
     Nessa "fábrica de pessoas" trabalham Lenina Crowey e Bernard Marx. Lenina (o nome é uma referência a Vladimir Lenin) é uma beta, linda, condicionada a ser feliz e não amar, realizar suas tarefas na fábrica e servir todos os homens. Bernard Marx (referência a Karl Marx) é um Alfa-mais, insatisfeito com o mundo em que vive, estranho para a sociedade que tentar relutar contra ela para sentir as reais emoções. Ele tem idéias diferentes sobre os esportes e o consumo de soma, pela irregularidade da vida sexual, e recusa-se a obedecer os ensinamentos de Ford. Bernard resolve viajar, juntamente com Lenina, para uma "reserva", o último reduto da civilização antiga. Lá viviam setenta mil índio e mestiços, absolutamente selvagens, sem nenhuma comunicação com o mundo civilizado, conservando seus hábitos e rituais antigos e repugnantes. Durante essa viagem eles conhecem Linda, ex-mulher do Diretor da Incubadora que ficou perdida na reserva durante uma visita anos atrás, e seu filho John, que nunca conheceu o mundo civilizado, embora consiga receber uma educação sobre a língua e a cultura civilizada. Bernard vê a possibilidade de ganhar respeito e derrubar o Diretor da Incubadora levando os dois para apresentar de exemplos de selvagens para a civilização. Linda acaba sendo rejeitada pela sociedade em virtude de sua aparência horrorosa, e pelo fato de ter tido um filho, ato considerado obsceno e impensável e ter crença religiosa era ato de ignorância  John torna-se o centro das atenções e todos desejam vê-lo. O diretor fica desmoralizado e pede demissão da fábrica. Bom, não irei contar toda a estória para não tirar a graça de quem quiser ler.
     Em 1984, George Orwell criou um futuro dividido em três grandes potências: a Oceania (abrange Américas, Austrália, metade sul da África e Inglaterra), a Eurásia (Europa e Rússia) e a Lestásia (China, Japão, Coréia, parte da Índia e países do sudeste da Ásia). O norte da África e o oriente próximo são territórios em frequentes disputas pelas três potências. O livro conta a história de um funcionário do Ministério da Verdade (onde se fabricam verdade, algo como a mídia atual) da Oceania, Winston Smith (referência a Winston Churchill), que vive em uma sociedade totalitária governado pelo Grande Irmão (Big Brother em inglês, isso mesmo foi esse livro que inspirou o programa de TV). Na sala de seu apartamento tem uma Teletela (em todos cantos da cidade tem uma) que é um dispositivo que o governo pode ver e ouvir tudo oque acontece, e pode transmitir ordens. Smith não tem muitas lembranças se sua infância e nem dos anos anteriores à mudança política. Diariamente há um evento chamado Dois Minutos de Ódio, onde todos os cidadãos devem parar seu trabalho para atacar histericamente com gritos e xingamentos o traidor e foragido Emmanuel Goldstein, e depois adorar o Grande Irmão. O governo da Oceania é composto pelos Ministério da Verdade é responsável por alteração de documentos históricos, Ministério do Amor que espiona e controla as pessoas, Ministério da Paz lida com guerra e Ministério da Fartura é responsável pela fome.
     O controle da população se dá principalmente por medo e totalitarismo, espionando as pessoas pelas Teletelas espalhadas em toda cidade e qualquer pessoa que esboça alguma ponta de ideia contrária à ideologia do Partido é torturado pelo Ministério do Amor. Para controlar o pensamento das pessoas o Ministério da Verdade está desenvolvendo um novo idioma, chamado de Novilíngua. Ao contrário das línguas normais, que vão aumentando o número de termos novos e palavras, a Novilíngua tem vários termos retirados de seu dicionário, principalmente sinônimos e antônimos. Por exemplo a palavra mau não existe em Novilíngua. Se temos a palavra bom, o oposto seria imbom, sendo o prefixo im indicando que é o antônimo. O principal motivo para redução de palavras é que essa redução reflete nos pensamentos das pessoas, dificultando as idéias e facilitando o controle, quanto mais restrita a língua mais restrito é o pensamento das pessoas. As principais palavras novas da Novilínguas são Crimidéia, que é o crime ideológico, pensamentos ilegais, Duplipensar, que significa duplicidade de pensamentos, saber que está errado e se convencer que está certo, e Impessoa, uma pessoa que não existe mais e todos seus registros históricos devem ser apagados. No livro,  Orwell expõe a Teoria da Guerra, onde o objetivo não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa, e sim manter o poder das classes altas, e limitando a acesso a cultura, educação, saúde e outros recursos básicos para a classe baixa, mantando uma Guerra constante. Algo muito parecido com o que ocorre hoje em dia nos EUA.  No enredo da estória, Winston Smith conhece Júlia, uma bela funcionária do Ministério da Verdade e acaba se apaixonando e se envolvendo com ela. Júlia tem idéias contra o partido, e acaba envolvendo Winston nessas atividades, e a partir daí ele é perseguido pelo partido e, enfim também não quero estragar a história se alguém ainda pretende ler o livro.
     Mas esses dois livros são clássicos da literatura de ficção científica (embora alguns considerem como ficção política) e muitas de suas previsões foram realizadas. Traçando um paralelo entre os dois livros: em 1984 os livros eram censurados e em Admirável os livros não despertava os interesses das pessoas, pois ninguém tinha motivos para ler. Em 1984 a informação era privada aos governantes e em Admirável a informação é tanta que as pessoas se tornaram passivas. Em 1984 a verdade é escondida da população e em Admirável a verdade é soterrada num mar de informações irrelevantes. Em 1984 as pessoas eram controladas pela dor e medo e em Admirável as pessoas eram controladas pelo prazer. Em 1984 o ódio nos destruiria e em Admirável o amor nos destruiria.
     Muitas semelhanças com a realidade né? Mas o mais interessante nos dois livros é que as pessoas são controladas e nem percebiam. Hoje somos controlados e nem percebemos. Em 1984 o partido sabia dos pensamentos da pessoas pelas Teletelas que escutavam as pessoas em todos lugares, hoje colocamos nossos pensamentos livremente em Twitters e Facebooks. Em Admirável a verdade era escondida embaixo de um monte de informações inúteis, hoje em dia temos a televisão e a internet proporcionando isso. Em 1984 as pessoas eram controladas por medo e hoje temos as notícias de guerras e crimes nos jornais. Em Admirável as pessoas eram controladas pelo prazer e hoje temos o carnaval, futebol, consumismo, bares e festas proporcionando esse prazer. Enfim, podemos fazer muito mais comparações, mas recomendo que leiam esses livro e tirem suas próprias conclusões.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A História da Quarta Dimensão

     No ano de 1905, um jovem cientista chamado Albert Einstein publicou três artigos que revolucionaram o mundo moderno. Em um deles, ele tenta explicar o movimento Browniano (movimentos aleatórios de partículas sobre a água) usando a teoria atômica, que ainda não era bem aceita na época. Em seu segundo artigo, sobre o efeito foto-elétrico (produção de corrente elétrica através usando luz), ele usa a teoria quântica de Max Plank, publicada em 1900, para explicar o fenômeno. Mas foi seu terceiro artigo o mais revolucionário e conhecido Teoria da Relatividade, onde ele introduz o conceito do Tempo como sendo a Quarta Dimensão. Mas antes dele, a Quarta Dimensão já era muito discutida e comentada entre os grandes cérebros da Europa, sendo muitas vezes tratada como misticismo, influenciou muitos trabalhos de cientistas, livros de grandes escritores e obras de artes de gênios.
     O que é Dimensão? Dimensão é algo que podemos mensurar, medir, seja o comprimento, a temperatura, o tempo, etc.... Na Física as dimensões são usadas para descrever fenômenos observados, como os movimentos das estrelas, trajetórias de balas de canhões. A Física Clássica, descreve o Espaço usando três dimensões, a largura, a altura e o comprimento. Essas três dimensões são de fácil compreensão para nós, pois nós crescemos e vivenciamos ela em nosso dia-a-dia. Tentar imaginar uma quarta dimensão espacial dá um nó em nosso cérebro, fica bem além de nossas limitações, e foi aí que Einstein sugeriu uma quarta Dimensão não espacial, e sim temporal. Mas essa discussão começou bem antes de dele.
     Euclides, em seu livro Os Elementos em 300a.C., fez uma compilação dos conhecimentos de sua época, sobre objetos geométricos em até 3 dimensões espacias (largura, altura e profundidade). Esse livro foi a bíblia dos matemáticos e cientistas durante quase 2000 anos seguintes, e serviu de alicerce para toda ciência do renascimento, inclusive a Mecânica Newtoniana. O sucesso da geometria espacial e a impossibilidade de visualizar uma quarta dimensão espacial fizeram que a procura de uma geometria de mais dimensões fosse desestimulada, e os poucos que se atreviam  eram ridicularizados. No século XIX, um matemático alemão chamado Georg Bernhard Riemann, foi o primeiro a estabelecer os fundamentos matemáticos das geométricas no espaço com maior número de dimensões. Riemann mudou o curso da matemática para o século que se seguiu, demonstrando que estes universos, por mais estranhos que possam parecer, são completamente coerentes e obedecem à sua própria lógica interna. Para visualizar algumas de suas idéias, pense em empilhar muitas folhas de papel uma sobre a outra. Agora imagine que cada folha representa todo um mundo e que cada mundo obedece às suas próprias leis, diferentes daquelas de todos os outros. Seres inteligentes poderiam habitar alguns desses planetas, ignorando por completo a existência dos outros.
     Normalmente, a vida em cada um desses mundos paralelos prossegue independente do que se passa nos outros. Em raras ocasiões os planos podem se cruzar e rasgar o próprio tecido do espaço, o que abre um buraco entre esses dois universos. Como o buraco de minhoca que aparece em Jornadas nas Estrelas, essas passagens tornam possível a viagem entre esses mundos. Usando esse conceito, o matemático Charles L. Dodgson, que lecionava na Universidade de Oxford, escreveu vários livros, com o pseudônimo de Lewis Carroll, usando essas estranhas idéias matemáticas. Quando Alice cai no buraco de coelho ou atravessa o espelho, ela entra no País das Maravilhas, um lugar estranho onde gatos desaparecem, cogumelos mágicos transformam crianças em gigantes e o Chapeleiro Maluco celebra desaniversários. Não é de  surpreender que Carroll encontrou entre as crianças uma receptividade muito maior a essas idéias que entre os adultos, cujas idéias preconcebidas sobre espaço e lógica vão se tornando mais rígidas com o passar do tempo. De fato, a teoria de dimensões adicionais do Riemann tornou-se parte permanente da literatura e do folclore infantil, dando origem a outras obras clássicas como a terra de Oz de Dorothy e a Terra do Nunca de Peter Pan.
   Contudo, sem nenhuma confirmação experimental ou motivação física imperativa, essas teorias de mundos paralelos definharam como ramo da ciência. Ao longo de dois milênios, cientistas se detiveram ocasionalmente na ideia de dimensões adicionais, somente para descartá-las como não passível de teste e portanto tola. Embora fosse matematicamente intrigante, a teoria de geometrias mais elevadas de Riemann foi posta de lado como brilhante mas inútil. Os cientistas dispostos a estudá-las logo se viram ridicularizados pela comunidade científica. O espaço multidimensional tornou-se o último refúgio dos místicos, excêntricos e charlatões. Em várias situações a ciência e o misticismo se confundem. Como disse o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke: "Mágica é qualquer tecnologia suficientemente avançada."
    Para podermos visualizar melhor a quarta dimensão, vamos primeiro visualizar um mundo em duas dimensões, que seria um mundo plano. Um livro que ilustra bem como seria a vida em um mundo bidimensional, escrito em 1884 pelo clérigo Edwin Abbot, é o Flatland: A Romance of Many Dimensions by a Square. Por causa do intenso fascínio público pelas dimensões adicionais, o livro foi um sucesso instantâneo na Inglaterra. Abbot usou o a controvérsia em torno da quarta dimensão como um veículo de mordaz crítica social e sátira. Em Flatland, seus habitantes os Flatlanders ou Chatolandenses são figuras geométricas bidimensionais. O herói do romance, Sr. Quadrado, é um cavaleiro conservador que vive em uma sociedade estratificada. As mulheres, ocupando o escalão mais baixo da hierarquia social, são meras linhas, os nobres são polígono, ao passo que os Sumos Sacerdotes são círculos. Quanto mais lados as pessoas têm, mais elevada é sua categoria social.
     Discutir a terceira dimensão é estritamente proibido, e quem quer que a mencione é condenado a severa punição. Um dia Sr. Quadrado tem sua vida virada de cabeça para baixo quando ele é visitado por um misterioso Lorde Esfera, um ser tridimensional. Aos seus olhos, Lorde Esfera parece um círculo que pode mudar de tamanho magicamente. Lorde tenta explicar que vem de um outro mundo, chamado Spaceland, onde todos os objetos têm três dimensões. Quadrado não fica convencido, então Lorde Esfera retira Sr. Quadrado do mundo bidimencional e o joga em Spaceland. é uma experiência fantástica, quase mística para o Quadrado. Ao voltar, Quadrado tenta  a contar ao seus conterrâneos as maravilhas da terceira dimensão, os Sumos Sacerdotes o tomam por louco falastrão, e é condenado a passar os resto de suas vidas em uma prisão.
     Apesar do final pessimista, o livro de Abbot foi muito importante pela popularização de uma idéia de como seria uma visita a um mundo de dimensões múltiplas. Para imaginar uma viagem interdimensional, imagine arrancar Sr. Quadrado de Flatland e jogá-lo no ar. Digamos que, enquanto flutua por nosso mundo tridimensional, ele topa com um ser humano. Como Square nos veria? Como seus olhos bidimensionais só podem ver fatias planas de nosso mundo, um ser humano lhe pareceria um objeto feio e assustador. Primeiro ele veria duas figuras ovais de couro a sua frente, nossos sapatos. Quando é arrastado para cima essas duas figuras mudam de cor e forma e se transformam em dois círculos de tecido, as nossas pernas, até  se misturarem em um único círculo ovalado, nossa cintura. Depois aparecem mais dois círculos, os braços e mudam de cor, a cor de nossa camisa, e conforme continuam subindo os três círculos se junto em um só círculo de carna, nossa cabeça. Para ele, os misteriosos seres humanos são um amontoado apavorante de círculos e formas em constante mutação.
     De maneira semelhante, se fôssemos arrancados de nosso universo tridimensional e arremessados na quarta dimensão, constataríamos que o senso comum se torna inútil. Enquanto derivamos pela quarta dimensão, bolhas e formas estranhas surgem do nada diante de nosso olhos, mudando de forma e cor constantemente. E para reconhecermos diferentes criaturas quadridimensionais teríamos que distingui-las pelas diferenças no modo que essas bolhas mudam.
     Durante muitos anos, os cientistas tentavam "ver" a Quarta Dimensão". E foi um matemático inglês chamado Charles Hinton o primeiro a desenvolver algumas técnicas para "visualizar" a Quarta Dimensão. Ele foi o primeiro a visualizar um Hipercubo (cubo na quarta dimensão), também conhecido como Tesseract. Para chegar lá, Hinton se deu conta que por mais que tentamos ver a quarta dimensão, só conseguimos enxergar as sombras dos objetos quadridimensionais no plano tridimensional. Usando a analogia do Flatland, ao arremessarmos um chatôlandes no espaço ele continuará a enxergar bidimensionalmente, ele só verá secções planas dos objetos espaciais. Mas ele pode visualizar a sombra dele no plano. Na figura ao lado na parte de cima mostra a sombra de um cubo no plano bidimensional e a sombra de um hipercubo no espaço tridimensional. Outra maneira de visualizar seria fazer um desdobramento do cubo sobre o plano. Na figura ao lado na parte de baixo mostra o desbobramento do cubo sobra um plano e o desdobramento de um hipercubo sobre o espaço.
     O conceito de quarta dimensão penetrou tão profundamente no clima intelectual do final do século XIX que até dramaturgos fizeram troça dele. Em 1891, Oscar Wilde escreveu uma sátira sobre histórias de fantasma, "The Canterville Ghost", que zomba das proezas de uma certa ingênua "Psychical Society" (uma referência à Society for Psychical Research). Wilde evocou um fantasma resignado que encontra os recém-chegados locatários americanos de Canterville. Escreveu ele: "Evidentemente não havia tempo a perder, assim, adotando precipitadamente a Quarta Dimensão do Espaço como um meio de escapulir, ele (o fantasma) desapareceu através dos lambris e a casa ficou tranquila".
     Uma contribuição mais séria para a literatura da quarta dimensão está nas obras de H. G. Wells. Em seu romance de 1894, A Máquina do Tempo, Wells combinou vários temas matemáticos, filosóficos e políticos. Popularizou uma nova ideia em ciência, a de que a quarta dimensão poderia também ser vista com tempo, não necessariamente como espaço:
"Claramente... todo corpo real deve ter extensão em quatro direções: deve ter Comprimento, Largura, Espessura e Duração. Mas por uma enfermidade natural da carna... somos propensos a não notar esse fato. Há na realidade quatro dimensões, três que chamamos de raias do Espaço, e uma quarta, o Tempo. Há, contudo, uma tendência a inferir uma distinção irreal entre as três primeiras dimensões e a última, porque ocorre que nossa consciência se move intermitentemente numa única direção ao longo da última desde o início até o fim de nossas vidas."
     No conto "The Plattner Story", Wells chegou a brincar com o paradoxo da lateralidade. Gottfried Plattner, um professor de ciências está realizando um elaborado experimento químico, mas seu experimento explode e o lança em outro universo. Quando ele volta do outro mundo para o seu, ele descobre que seu corpo foi alterado de uma curiosa maneira: seu coração está do lado direito e ele se tornou canhoto. Quando os médicos o examinam ficam estupefatos ao constatar que todo o corpo dePlattner foi invertido, uma impossibilidade biológica no mundo tridimensional: "A curiosa inversão dos lados direito e esquerdo de Plattner é a prova que ele foi transportado do nosso espaço para a Quarta Dimensão...". Em um mundo bidimencional, um chatôlandes pode ser arrancado do plano, jogado no espaço tridimensional, girado e posto de volta no plano, com seus lados invertidos.
    A Quarta Dimensão também entrou na arte dos anos 1890. Foi entre os cubistas que se desenvolveu a primeira e mais coerente teoria da arte baseada nas novas geometria. As pinturas de Picasso (ao lado) são um exemplo, mostrando a clara rejeição de perspectiva, com faces de mulheres vistas simultaneamente de vários ângulos. Em vez de um único ponto de vista, as suas pinturas mostram várias perspectivas, como se fossem pintadas por alguém da quarta dimensão. Certa vez Picasso foi abordado por um estranho que o reconheceu e perguntou: por que ele não podia desenhar as pessoas como elas realmente eram? Por que tinha de distorcer a aparência das pessoas? Picasso pediu então ao homem que lhe mostrasse fotografias de sua família. Depois de olhar atentamente, ele respondeu: "Ah dua mulher é realmente tão baixa e chata assim?" Para Picasso, qualquer imagem por mais realista que fosse, dependia da perspectiva do observador.
     Os pintores abstratos tentaram não só visualizar os rostos pintados quadridimensionalmente, como tentaram retratar o tempo como a quarta dimensão. Na pintura Nu descendo uma escada de Marcel Duchamp vemos uma representação borrada de uma mulher, com número infinito de suas imagens superpostas ao logo do tempo à medida que ela desce as escadas. É assim que uma pessoa quadridimensional perceberia as pessoas, vendo todas as sequencias de tempo simultâneamente caso o tempo fosse a quarta dimensão. E influenciado pelo Tesseract de Hinton, Salvador Dali pintou seu famoso quadro Christus Hipercubus (ao lado), que retrata Cristo sendo crucificado numa cruz quadridimensional.
   

     A quarta dimensão penetrou também na Rússia Czarista. Em Os Irmão Karamazov, de Fiodor Dotoiévski, o protagonista Ivan especula sobre a existência de outras dimensões e geometrias não-euclidianas durante uma discussão sobre a existência de Deus. Em razão de eventos históricos que se produziram na Rússica, a quarta dimensão iria desempenhar um curioso papel na Revolução Bolquevique.Esse estranho interlúdio na história da ciência é importante porque Vladmir Lenin iria participar do debate sobre quarta dimensão, que iria exercer poderosa influência sobre a ciência da ex-União soviética nos anos seguintes (pelos físicos russos, claro).
     Depois que o czar esmagou a revolução de 1905, uma facção chamada otzovistas se formou no seio do partido bolchevique. Eles sustentavam que os camponeses não estavam prontos para o socialismo; para prepará-los, os bolcheviques deveriam atraí-los por meio da religião e do espiritualismo. Para apoiar suas visões, os otzovistas faziam citações da obra do físico e filósofo Ernst Mach, que havia escrito eloquentemente sobra a quarta dimensão e a recente descoberta da radioatividade  Os otzovistas ressaltavam que a descoberta da radioatividade por Henri Becquerel e do rádio por Marie Curie em 1896 haviam inflamado um furioso debate nos círculos intelectuais. Parecia que a matéria, que os gregos pensarem ser eterno e imutável, agora podia se desintegrar lentamente, e a energia podia reaparecer. Novos experimentos mostraram que os fundamentos da física newtoniana estavam se esboroando. Para alguns Mach era um profeta que os iria retirar da barbárie. No entanto ele apontava para direção errada, rejeitando o materialismo e declarando que o espaço e tempo é produto de nossas sensações.
     Criou-se uma cisão entre os bolcheviques. Seu líder, Vladimir Lênin, ficou horrorizado. Fantasmas e demônios seriam compatíveis com o socialismo? Em 1908, exilado em Genebra, ele escreveu um imenso volume filosófico, Materialismo e Empirocriticismo, defendendo o materialismo dialético da violenta investida do misticismo e da metafísica. Para Lênin, o misterioso desaparecimento da matéria e energia não provava a existência de espíritos. Segundo ele isso significava que estava surgindo uma nova dialética que iria abarcar tanto a matéria quanto energia. Não mais seria possível vê-las como entidades separadas, como fizera Newton. Um novo princípio de conversação era necessário. (Lênin desconhecia que Einstein havia proposto o princípio correto três anos antes) Além disso Lênin questionou a aceitação pressurosa da quarta dimensão de Mach. Primeiro louvou Mach, que "levantou a questão muito importante e útil de um espaço de n dimensões como espaço concebível". Em seguida censurou por não ter enfatizado que somente as três dimensões podiam ser verificadas experimentalmente. A matemática pode explorar a quarta dimensão e o mundo do possível, e isso é bom, escreveu Lênin, mas o czar só pode ser derrubado na terceira dimensão!
     Lutando no campo de batalha da quarta dimensão e da nova teoria da radiação, Lênin precisou de anos para extirpar o otzovismo do partido bolchevique. Acabou contudo por vencer a batalha pouco antes da deflagração da Revolução de Outubro de 1917.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Fantástico Legado das Teorias


     Essa história está no livro "Deus é Matemático?", de Mário Lívio, e vai de encontro com um assunto que já estava sendo elaborado em outros post, a utilidade prática de certas pesquisas. Esse segundo tópico gerou bastante polêmica recentemente, com a notícia do Bóson de Higgs e o Acelerador de Partículas LHC, muitos perguntaram: "Porque gastaram bilhões de Euros para construir uma gigantesca máquina para descobrir uma minúscula partícula que sabe-se lá para que servirá? Porque não usam esse dinheiro para acabar com a fome, pesquisas sobre o doenças, etc...?".




     "A cafeteria estava lotada, com uma garoa fina e constante na Cambridge de 1684. Era uma boa cafeteria onde no final da tarde os amigos se encontravam para discutir política, governo, dinheiro e ciência. Em Cambridge ciência era uma das preocupações e discussões de cafeteria no século XVII. Fazia tempo que Edmund Halley não conversava com seu amigo Isaac Newton e tinha marcado com ele tomar um bom café e um chá para uma conversa descontraída. Halley era astrônomo prático, do dia-a-dia de observações em telescópio, preocupado em apontar e achar planetas e cometas. Newton já era conhecido pelo seu potencial matemático e considerado um teórico. Diferente dos tempos atuais, um teórico era bastante respeitado e levado a sério.
     Depois de falarem sobre os assuntos corriqueiros, de colocar as pautas de amigos em dia, Halley e o arquiteto Christopher Wren (1632-1723) que estava junto na cafeteria, comentaram que tinham deduzido a lei de Kepler sobre o inverso do quadrado da gravidade, mas ambos estavam desapontados pois, além de incompleta estava imprecisa. Planetas não eram perfeitamente encontrados nas posições calculadas. Eles estavam bastante envolvidos nesses cálculos praticamente todos os dias durante alguns anos, cada hora do dia dividida entre cálculos e telescópios.
     Para provocar Newton, Halley se gabou que o cálculo era muito difícil e então perguntou com uma segurança enorme ao amigo:" Meu caro Newton, será que você tem idéia de qual a forma da órbita de um planeta ou cometa?", já olhando para o colega Wren com ar de desdém. Ambos quase caíram da cadeira quando Newton respondeu: "Claro, é elíptica eu já demonstrei anos atrás em meus rascunhos! ".
     Era de se esperar (hoje em dia para nós) que isso seria possível pois, focados apenas em números e cálculos e menos em raciocínio tranquilo e constante, Halley e Wren se desviaram diversas vezes da rota e da percepção de seus próprios dados. Ficar o tempo todo focado em dados não leva a nada. Se você não usa o tempo para fazer aquilo que as pessoas dizem ser "perda de tempo" seus resultados são muito pobres. A ciência conhecida como básica é desprezada nos dias de hoje pois, os teóricos são tachados como pessoas que vivem no "mundo da lua". Essas pessoas são muito, mas muito mais importante do que as que estão apenas em posse dos dados.
     Por exemplo, poucos conhecem Tycho Brahe (1546-1601), um astrônomo amador, rico, que tinha um arsenal de dados de observação escondidos e nada tinha de conhecimento sobre a verdadeira rota dos planetas. Era um astrônomo de dados, um astrônomo de aquisição de dados, o dono do "home broker" antigo, mas não conhecia o funcionamento daquilo que tinha em mãos. Quem ficou mais conhecido e herdou a riqueza e conhecimento que estava nas mãos de Brahe foi Kepler, que herdou todos os dados após sua morte. Foi Kepler quem criou as leis do movimento orbital e colocou ordem no mundo astronômico que andava bagunçado por dados contraditórios. Foi Kepler quem mostrou o caminho correto para o entendimento da natureza do universo espacial.
     Isto é para mostrar que ficar postado na frente de uma tela ou pagar tufos de dinheiro para adquirir uma plataforma, não lhe garante sabedoria suficiente para desprezar os conhecimentos teóricos. Não significa que você não consiga adquirir conhecimentos teóricos, mas se assim desejar, terá que dispensar seu tempo da frente das telas on-line e de tabelas de dados o tempo todo.
     Quando Newton voltou para sua casa não encontrou o tal rascunho. Resultado: trabalhou como nunca para provar que as órbitas dos planetas eram elípitcas e de uma forma diferente da que tinha feito antes. Não gostou e conseguiu deduzir a primeira forma novamente. Como consequência, surgiu o livro que é considerado o fundador do Cálculo Diferencial e Integral de nome "Principia". Quanto a Halley ficou muito satisfeito pois, ajudou o amigo Newton e ainda a si próprio uma vez que descobriu a órbita correta do cometa que leva seu nome: cometa Halley.
     Ainda assim existirão aqueles que vão dizer: "coitado, trabalhou tanto e ganhou o que com isso?" Newton não ganhou só fama, mas ele foi só o presidente da casa da moeda da Inglaterra, cunhando o novo formato para a Libra. E para quem pensa em dinheiro como tudo, sim Newton ganhou dinheiro e um título de nobreza reconhecido como Sir Isaac Newton."

     Realmente a primeira vista, a descoberta do Bóson de Higgs não parece ter muita utilidade, mas o que sabemos o que essas descobertas e experimentos geraram de fruto no futuro? Assim como Cristóvão Colombo, não tinha nem ideia da gigantesca descoberta que lhe esperava do outro lado do oceano, quando se atirou com as 3 caravelas ao mar, e assim como Colombos, nossos grandes cientistas mal sabem o que lhe espera a cada pesquisa e descobertas. Há uma história famosa a respeito de Michael Faraday (já tenho um posto no forno para este gênio). Como sua fama se espalhara amplamente, ele era visitado com frequência por curiosos. Certa vez, perguntado para que servia seu trabalho, ele respondeu: "Para que serve uma criança? Ela cresce e vira um homem." Um dia, William Gladstone, então Ministro das Finanças, visitou Faraday em seu laboratório. Nada sabendo sobre ciência, Gladstone perguntou sarcasticamente a Faraday que utilidade as enormes geringonças elétricas que enchiam seu laboratório podiam ter para a Inglaterra. Faraday respondeu: "Sir, não sei para que fim essas máquinas serão usadas, mas tenho certeza da que um dia o senhor vai me fazer pagar impostos por elas." Atualmente, grande parte da riqueza mundial está investida no fruto dos esforços de Faraday.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Evolução Artificial da Seleção Natural

Olá doidos,
Essa excelente animação feita por Carlos Ruas, criador de "Um Sábado Qualquer", faz uma breve explicação sobre a Seleção Natural. Nem preciso dizer que ficou Genial. Já postei aqui outras animações    da série Quer que eu Desenhe, todos muitos bons.


E para quem se interessar pelo assunto, segue a dica de um podcast excelente (meu favorito) sobre esse interessantíssimo tema. Clique no link e baixe o "NERDCAST - N249 Evolução Artificial da Seleção Natural", e escute. Muita informação e risadas garantidas.
:)

PS: para que se animar a ouvir o nerdcast, começe a escutar a partir de 18 minutos, pois o início é uma chatíssima leitura de e-mails.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Dieta da cerveja

Maria Degolada
     Bom doidinhos. Neste post irei desmistificar a falácia que cerveja engorda. Muito pelo contrário, a cervejinha bem gelada ajuda a emagrecer. E para podermos compreender melhor essa teoria teremos que relembrar um conceito que aprendemos no colégio (quem não dormiu na aula) a Caloria (cal). Por definição, 1 Caloria é a quantidade de energia (calor) necessário para elevar em 1°C a temperatura de 1 grama de água (técnicamente 1 cal eleva 1g de água é de 14,5°C a 15,5°C, há uma pequena diferença em outras temperaturas, mas vamos desprezar). Ao usarmos Caloria para definir o valor energético de alimentos, nos referimos à quilocalorias, representado por CAL com "C" maiúsculo (1 Cal = 1kcal = 1.000 cal).
     E onde entra a cerveja nessa história???? Bom, se tomarmos uma Maria Degolada (é muito boa) estupidamente gelada, digamos a -4°C (conforme as geladeiras mentirosas de bar), nosso corpo irá gastar 40 cal para elevar cada grama da ceva até a temperatura do nosso corpo, 36°C arredondando. Como 1 litrão de ceva tem 1.000g, então gastamos 40 x 1.000 = 40 Cal, ao abrirmos a segunda garrafa vamos pra 80 Cal. Isso sem contar nas calorias gastas no ato de abrir a garrafa e se levantar pra ir ao banheiro. Infelizmente essas calorias gastas são compensadas pelas batatinhas fritas do bar e a costela gorda do churras. Na verdade a caloria da própria cerveja já compensa essa energia gasta. Mas pelos menos já temos uma boa desculpa pra tomar umas :)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Simulacro e Simulações

Em 1981 o ilustre sociólogo francês Jean Baudrillard escreve um de seus livros mais inovadores Simulacros e Simulação. Simulacro, do latim para similaridade. Baudrillard afirma que em nossa sociedade atual, nós substituímos toda nossa realidade por símbolos e imagens. Toda a experiência humana hoje é uma simulação do real. Nós estamos tão aficionados pelos simulacros que a realidade se tornou só um vestígio, é algo tão irreal quanto a simulação. A realidade deixou de existir, e passamos a viver uma representação da realidade, na sociedade pós-moderna, difundida pela mídia. A imprensa, televisão, filmes, internet, o valor do dinheiro, urbanização e o processo industrial nos afasta da condição natural do mundo. Nós estamos simulando coisas que não existem. Irônico, mas com fundamentos, Baudrillard defende que que vivemos em uma era em que os símbolos tem mais força e peso que a própria realidade. Desse fenômenos nascem os simulacros, simulações malfeitas do real, que são mas atraentes que próprio objeto reproduzido.

O escritor argentino Jorge Luís Borges mostra brilhantemente este fenômeno em um poema chamado Do Rigor na Ciência:
"Naquele Império, a arte da cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única província ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império toda uma província. Com o tempo, esses mapas desmedidos não satisfizeram e os colégios de cartógrafos levantaram o mapa do império, que tinha o tamanho do império e coincidia pontualmente com ele. Menos adictas ao estudo da cartografia, as gerações seguintes entenderam que esse dilatado mapa era inútil e não sem piedade o entregaram à inclemência do sol e do inverno. Nos desertos do oeste perduram despedaçadas ruínas do mapa habitadas por animais e por mendigos. Em todo país não há outra relíquia das disciplinas cartográficas."
Ou seja, o Império fez um mapa 1:1 do Império (na verdade tomo mundo morreu soterrado no mapa gigante) e o Império passou a ser o próprio mapa . Ele queria um mapa tão perfeito, que a única forma da simulação ser perfeita era tornar realidade a simulação. Ou seja, o Império transformou a realidade deles em uma simulação. Quando o povo perdeu o interesse pela simulação, eles largaram de mão, só que a simulação tinha se tornado a realidade deles, e o Império foi pra ruína. Hoje em dia a simulação tornou-se tão importante em nosso mundo que as pessoas estão esquecendo da realidade, da base dessas simulações. Atualmente nós estamos tão viciados em nossas simulações que criamos do mundo real. O valor do dinheiro do país, que antigamente era por ouro, hoje é por credito, a crise que vivemos hoje é fruto dessas simulações, a soma das linha de créditos mundiais é maior que o PIB Mundial. É tudo uma ilusão, uma bolha gigantesca. Nós estamos nos enfiando na Caverna de Platão, adorando ver as sombras na parede.

Em seu livro, Jean Baudrillard argumenta que as sociedades ocidentais passaram por uma precessão de simulacros, onde temos o original e as três ordens de simulacros: a imitação, a produção (cópia mecânica) e, por fim, a etapa final, a simulação, onde interagimos com os símbolos/representações/imagens/ícones, achando que é o original.

Simulacros e Simulações influenciou grandes pensadores, e inspirou vários filmes, como Truman Show, Cidades dos Sonhos e Matrix. Na opinião do autor, Matrix fez uma interpretação ingênua do seu livro, por isso não gostou do filme. Em suas entrevistas sobre o filme, Keanu Reeves afirma ter lido o livro. Os diretores do filme, os irmão Wachowskis, convidaram Baudrilliard para participar como consultor filosófico das duas sequências, mas ele recusou o convite afirmando: "Como poderia? Não tenho nada a ver com Kong Fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para isso. Se leram o livro, não entenderam nada." Diferentemente do filme Matrix, em seu livro a diferença entre o real e o irreal é muito mais sutil. Não deixa o mundo real de um lado e o virtual do outro. Já nos filmes Truman Show e cidade dos Sonhos, os realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente.

Jean Baudrillard, pensador francês falecido em 2007, afirmava categoricamente que a chamada Guerra do Golfo (1991) não existiu. Para ele, o que a TV americana mostrou, em especial a CNN e Peter Arnett, foi um grande vídeo-game. À luz dos fatos, a investida militar dos americanos no Iraque durou menos de um mês. Ela se resumiu a um intenso bombardeio aéreo sobre a cidade de Bagdá, o qual o Pentágono chamou de "Operação Tempestade no Deserto", um bombardeio "cirúrgico" que preservou a patrimônio histórico/cultural da cidade. Depois de alguns dias, a infantaria se encarregou de fazer o resto da "limpeza". Ao todo, apenas 36 soldados americanos morreram no "conflito". Para Baudrillard, a Guerra do Golfo não aconteceu e nunca existiu, pelo menos nos moldes convencionais. Foi uma criação da mídia.

A Disneylândia é um modelo perfeito de todos os tipos de simulacros confundidos. É um dos exemplos que o autor analisa em seu livro. Mas aqui quero falar de alguns movimentos sociais. Irei usar aqui dois exemplos o movimento Punk, e mais recente os Emos. O movimento Punk surgiu em Londres, por pessoas que se vestiam como queriam. Não queriam criar moda, apenas serem eles mesmo. Não havia um esteriótipo punk. Mas após o surgimento de algumas bandas, e alguns ídolos como Sid Vícius e as pessoas pensaram: Ei, esse é meu ideal! E a partir daí o movimento Punk (símbolo) nasceu, quando o Punk (original) morreu, ou desapareceu. A pessoas preferiram os símbolo ao original, e o perpetuaram através de ritos (gírias, moda, relações sociais...) como qualquer outra cultura de massa. E os Emos, por se considerarem mais sensíveis e por isso incompreendidos, se isolaram, à margem da sociedade. Então surgiram as bandas de músicas Emos. Dezenas se encontram shoppings e parques. Pessoas que pensam iguais, mesmas roupas, mesmo cabelo com chapinha e se entendem. Então por que diabos continuam alimentando a idéia de serem sozinhos e tristes???

Oque dizer então da religiões? O mesmo tipo de controle foi e está sendo aplicado à Religiões. O Islamismo está sendo caricaturizado através de ícone, e pela falta de um grande líder espiritual, a grande nação Islâmica faz um um silêncio vergonhoso perante a mídia. Bom, e quanto à Jesus, que há muito perdemos o Jesus original e ganhamos um símbolo dele na cruz. Tivemos algumas belas imitações (1° Fase), acabamos por consumir a reprodução em massa desse símbolo (2° Fase), e agora já tomamos este pelo original. Um belo Case de Sucesso.

"Livre do real, você pode fazer algo mais real que o real: o hiper-real”
 (Jean Baudrillard).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um Pálido Ponto Azul

Última foto tirada pela Voyager 1

Ao passar pela órbita de Saturno, a pedido de Carl Sagan, a Sonda Voyager 1 voltou-se para trás e tirou várias fotos do sistemas solar, uma delas é a foto a foto acima, que mostra um pálido ponto azul, a nossa Terra. Do tamanho de um pixel azul, suspensa num raio de sol refletida pela sonda, ela se encontrava a 6,4 bilhões de quilometros da Terra, nos confins do sitema solar. Toda a história humana aconteceu neste pequeníssimo ponto azul.
O Texto abaixo só poderia ser é do único Astrônomo capaz de se comunicar com o público, Carl Sagan:
"A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma última olhada em direção de casa. Desde Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe: nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um "pixel" solitário. Dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos, sóis distantes. Mas, justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado... valeria a pena ter tal fotografia.
Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que, a Terra era um mero ponto em um vasto cosmos circundante. Mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance. E talvez a nossa última, nas próximas décadas.
Então, aqui está — um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol, como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo — mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com o nacionalismo não parece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes — uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal. 
Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superstar, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração desse ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores dalgum outro canto, quão frequentes as suas incompreensões, quão ávidos de se matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa. O nosso planeta é um grão solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de algures para nos salvar de nós próprios.
A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que alberga a vida. Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie puder emigrar. Visitar, pôde. Assentar-se, ainda não. Gostarmos ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.
Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido." 

-Carl Sagan